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Café com Pão

Café com Pão era um mendigo que perambulava pelos arredores da Escola Nossa Senhora de Fátima, em Januária, lá nos confins de Minas Gerais, na década de 1990. O apelido não se sabe quem lhe deu. Sua história, de onde ele veio, qual era seu verdadeiro nome também eram uma incógnita. Era como se o homem tivesse surgido em um passe de mágica.

Café com Pão era alto e forte. Àquela altura, aparentava carregar sobre os ombros meio século de vida. Sobre os ombros ele também trazia um saco de estopa que não largava por nada no mundo, com seus pertences. Parecia carregar ali um tesouro, uma relíquia. Talvez sonhos perdidos. Os cabelos despenteados eram grisalhos e encaracolados, assim como a barba que lhe cobria o rosto quadrado e desgastado pelo tempo. Ainda que na cidade fizesse um calor insuportável, Café com Pão não abria mão de seu terno, que era sempre o mesmo: velho e rasgado embaixo dos braços, cuja cor cinza se confundia com o encardido. Os sapatos eram surrados e furados, o que fazia com que seus dedões ficassem à mostra.

Ninguém sabia dizer, ao certo, de onde surgira aquele homem que trazia os olhos vagos, perdidos inconscientemente nos horizontes alaranjados daqueles fins de tarde. Os adolescentes que, como é sabido, não são gente, desciam as ladeiras da escola, pequenas ruas de paralelepípedo, em suas bicicletas sem freio. E, ao passarem perto de Café com Pão, cantarolavam repetidas vezes em uníssono “Café com pão, manteiga não”. “Café com pão, manteiga não”. Riam como se o mundo fosse uma eterna festa e iam-se embora.

Pobre Café com Pão, sequer ouvia aquelas vozes. Sequer notava a presença dos intrusos que invadiam seu mundo louco. Café com Pão era dócil, nunca havia jogado pedras ou corrido atrás de ninguém - como fazem algumas nas mesmas condições que ele, que vagam pelas ruas, sem rumo. Em sua loucura, se não parecia feliz, tristeza também não denotava. Às vezes ficava parado no mesmo lugar por um longo período, como que viajando pelos interiores de seu Eu, outras vezes , conversava animadamente e até gargalhava com pessoas que só existiam em sua cabeça.

Quem era Café com Pão tornou-se o grande mistério daquele lugar. Ninguém jamais soube. Mas Café com Pão viverá para sempre nas lembranças adolescentes de quem viveu aqueles anos. Porque Café com Pão não era só um mendigo desconectado da realidade. Era um ser diferente de tudo que ali existia. E que andava de um lado para o outro no meio da garotada. E que era parte essencial daquela paisagem, daquela vida descompromissada e até mesmo besta, mas feliz e poética, como costuma ser a vida nas cidades pequenas. 

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