Descaminhos

Olhava aquele rosto estranho de olhos grandes e esverdeados, refletidos em um caco de espelho que trazia na mão esquerda, suja e insegura. Não se reconhecia.

De repente, viu-se ali, diante de uma pessoa que não era ele. Sim, parecia-se com ele, tinha seus traços, seu sorriso, suas marcas. Sua essência, no entanto, ficara pela longa estrada pela qual caminhara sem saber aonde queria chegar. Em alguns momentos tentou voltar ao ponto de partida, mas para onde fora só existiam labirintos. E estava condenado a vagar por eles. Mas o que ou quem era ele de fato, se não era o que via no pedaço de espelho? Como se chamava? Quantos anos lhe pesavam sobre o corpo esquelético e imundo? Do que gostava? O que fazia naquele lugar frio e por que sua cabeça não conseguia ordenar as ideias? E por que o reflexo no espelho era uma imagem deformada e sem sentido? Ele não sabia. Não sabia porque, numa noite de um ano qualquer, sem perceber, perdera completamente a razão. Na sequência se foram a bela namorada, o emprego, a casa, os carros e tudo mais que o caracterizava como homem digno de tal alcunha. Agora nada mais era que um alguém que vagava sem rumo pelas ruas e avenidas da cidade. Agora era um homem louco e só.  

Às vezes, uma vontade absurda povoava seus pensamentos desordenados. Nesses momentos de delírio, desejava voar. Não voar metaforicamente como o fazem os poetas, mas voar literalmente, praticar o verbo, a ação. Voar como uma gaivota, como o super-homem, como Ícaro, talvez, mas, diferentemente deste, suas asas não derreteriam ao sol, porque as dele seriam de verdade e não de cera como as de Ícaro. Ele era louco, não bobo, ora bolas. Queria, nesse voo, chegar mais perto do céu e do azul que, de alguma forma, talvez por reminiscencias da sanidade, conseguia admirar. Ele deveria saber que o céu não era azul, que aquele azul era como os seus olhos o viam e não como era realmente. Mas e daí? O importante é que o céu que ele via era azul e isso bastava. Se era ilusão ou não, para ele não era relevante. Ele só queria voar bem alto e esquecer, por um minuto que fosse, a crueldade do mundo que, um dia, o fez louco.  

Trazia os olhos cansados e, por vezes, em alguns raros momentos de lucidez, percebia-se ferido na alma. Tinha a sensação de que o coração sangrava. Então, chorava copiosamente, adormecia e, naquela pequena morte cotidiana, sonhava com o homem que um dia fora. No dia seguinte, de nada se lembrava e uma estranha paz o invadia por inteiro. O peso dos anos, roubara-lhe o viço dos olhos e também alguns dentes. Fizera-lhe marcas profundas por dentro e por fora. Quando não notava isso, era imensamente feliz em meio a delírios e sonhos fantásticos que se faziam cada vez mais reais em seu universo de loucura.

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