Pular para o conteúdo principal

O presente


Salvador Dali -"A persistência da memória"-1931


Depois de mais um dia de trabalho, enquanto o ônibus percorre seu caminho levando-me de volta para casa. Dentre tantos rostos diferentes que vejo, um me faz lembrar alguém que conheci. E através deste rosto outra lembrança: uma cidade, um céu azul anil e belas noites enluaradas. Uma praça. Uma sorveteria à margem do rio. Um cheiro de liberdade, de juventude, de amigos tão cheios de vida, de sorrisos e olhares radiantes. Não faz muito tempo, eu estava lá e agora tão distante.

O responsável, claro, só pode ser ele: o tempo. Este tão relativo tempo que passa ora tão lento ora tão rápido, porém não para jamais. Não pede licença. Não espera. De repente o presente já é passado. E o futuro? Este não chega nunca. Passamos toda a vida esperando-o e ele cada vez mais longe. Ele, na verdade, não existe. O hoje sim é real. E é por isto que ele se chama presente. 

O passado só é vivente em nossas lembranças; o futuro é somente um oásis onde depositamos todas as nossas aspirações. Os nossos desejos e sonhos que só se realizam no presente. Este tal futuro faz-se importante em nosso viver, no entanto, está sempre atrelado ao presente. Pois trazemos em nós a esperança de que em cada amanhecer um novo presente nos entre pela fresta da janela como um raio de sol atrevido, aquecendo-nos os corações. 

Agora é hora de fechar o arquivo do meu passado. A chave guardo no coração e toda vez que meus sentidos forem tocados por algo ou alguém que, inconscientemente, comover a minha alma voltarei àquele tempo que não mais é real, mas que um dia foi um lindo presente que levarei por toda a minha vida. 

Comentários

  1. O tempo, o que dizer dele?
    Vem rápido e lento. Ele abusa de nossos sentimentos quando não consegue nos dominar. Nós meros mortais em potência somos convidados a retornar nas dimenções mais profundas da nossa vida. Quando isso acontece com as pessoas que transitam nas esferas literárias saem belas e contrastantes em formas de palavras e um pouco da revelação do eu interior como o texto que pude ler acima.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Despertar das borboletas

Coração te viu há um tempão,
mas a princípio sentiu nada, não.
Um dia, como outro
qualquer no mundo,
mergulhou nos olhos teus...
E naquela cena de segundos,
percebeu que havia algo ali,
até então desconhecido...
E foi assim, com aceleradas
e ruidosas batidas, no cantinho
esquerdo do peito,
pela alegria da descoberta,
que ele despertou aquelas
preguiçosas borboletas,
há muito tempo dentro
de mim adormecidas.

s.melo

O mundo é uma janela

O mundo é uma janela...
cada um vê a vida
por meio dela.
Tem gente que
a mantêm fechada,
tem gente que
a deixa sempre aberta...
Simplesmente porque
não quer perder
nenhum segundo
das vezes em que ela é
incrivelmente bela.

s.melo

Dar à luz um poema

As entranhas em ebulição.
Caneta, papel, teclas
ao alcance das mãos.
O poema quer nascer.
Quer conhecer o mundo,
Ver as estrelas, o mar,
A vida externa.
Já não cabe dentro da alma.
Quer voar, pousar na flor,
Tal qual borboleta
ou colibri apaixonado,
quer beijar...
Mesmo que seja a tez do word.
Oh, sim!
Como virá à tona não lhe é importante,
se da tinta de uma caneta
ou das teclas de um computador.
Nascer é só o que ele quer.
E ser livre,
ser amor, ser dor,
ser protesto, resistência.
ser esperança.
ser sonho, ser possível.
Realizar-se poesia.
Ser, simplesmente.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac...

Pronto, nasceu.
Libertou-se, bateu asas.
Pousou sutil, leve como a brisa
num diário solitário.
No olhar de alguém
do outro lado da tela, do outro lado do oceano.
Olhos cintilaram.
Corações foram tocados.
Um novo universo surgiu.
O poema está em festa,
Viverá.