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Adiós, Miguel!


Havia um jovem chamado Miguel, que vivia muito triste e desenganado. Para ele, nada tinha sentido. Em seus dias, nada mudava, tudo era sempre exatamente igual. Não importava se era primavera, outono ou qualquer estação. Seus olhos viam tudo em cor cinza.

Pela manhã, despertava às sete, tomava um café preto, lia o jornal e seguia para o trabalho, que não ficava longe de onde morava. Lá, havia muitas pessoas: homens e mulheres, jovens como ele. Todavia, não tinha amigos, tratava com indiferença todos que dele se aproximavam. 

Miguel tinha 27 anos, mas por conta de sua postura carrancuda, parecia ter bem mais. Era culto, inteligente e de boa aparência. No entanto, havia em seu semblante uma melancolia profunda. Era como se a vida nunca lhe houvesse dado razões para alegrar-se. Nada lhe despertava a atenção. Nada fazia brotar em seus lábios um sorriso. À noite, antes de dormir, sua cabeça dava voltas e voltas, enquanto seu coração tornava-se cada vez menor. Não entendia o porquê de tanto sofrimento e, muitas vezes, chegou a pensar em pôr um ponto final em sua vazia e medíocre vida.

Certo dia, porém, uma voz lhe soprou aos ouvidos, que havia algo mais. Que poderia experimentar a felicidade.
- Sim, ela é passageira, mas não é privilégio de poucos - foi o que ele ouviu.
- Todos têm o direito de vivê-la em algum momento do caminho.
O pobre rapaz nunca tinha escutado aquela voz tão serena. Ele sentiu que devia segui-la. 

Despertou numa manhã e notou que seu coração pulsava de um modo diferente. Ele nada entendeu, mas gostou muito daquela sensação que, pela primeira vez, o invadia por todos os poros de seu corpo. Nunca mais foi o mesmo. Abriu-se para a vida e para os presentes que ela apresenta a cada dia. Amores, sorrisos, paixões, amizades. Tristezas, dores e perdas também vieram, pois são parte que compõem o todo. Ele também compreendeu isso e, resignado, aceitou sua condição.

O tempo voou e nas asas deste, o nosso herói renovado, renascido. E daquele rapaz amargo e desesperançado nada restou. Ele descobriu que a vida é breve. Percebeu que não há tempo para lamentações infindáveis. Esse tempo regalado a cada um tem que ser aproveitado. Ainda que haja dúvidas e muitas lágrimas. Ele descobriu que viver vale a pena "se a alma não é pequena" como disse um dia o poeta.

Mas a alegria da descoberta durou pouco, se comparada aos anos de amargura pelos quais passara Miguel. Numa manhã de céu claro, ele seguia para o parque com a bicicleta que havia comprado uma semana antes. Enquanto pedalava, pensava na nova vida que queria ter. Arrumara uma linda namorada, a Josefina. Pretendia casar-se com ela, ter filhos e viver feliz para sempre, se assim fosse possível. Ele sabia que não era, mas sonhar não custa nada, certo? Marcara com Josefina naquela manhã. A moça estava a caminho. 

Pois bem, leitor amigo, chame de destino, acaso ou fatalidade o que veio a seguir. Um carro o pegou, quando atravessava uma rua sem sinalização, a poucos minutos do parque. Miguel morreu ali mesmo, aos 35 anos, sem ao menos se despedir da amada e da vida que agora lhe era tão boa. Tão plena. Virou estatística. Mas teve a sorte de ter sua história contada, na página de um blog.

Sueli Melo

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