Não me deixe só (apelo à poesia)

Muitas vezes guardo o choro e a dor.
Não desejo revelá-los, pertencem a mim.
Não interessam a mais ninguém.
Só os entrego à poesia.
Somente ela me conhece verdadeiramente.
Como explicaria o que se passa por dentro?
São tantas incertezas, descaminhos, pedregulhos.
Ela me entende e serena minh'alma.
Mas eu não preciso entendê-la, apenas senti-la.
Viver entre seus versos. E ela em mim.
Este é o nosso pacto.
Não me deixe só neste mundo de hipocrisias.
Neste mundo de mentiras e injustiças.
Sabe de minhas fraquezas, de minhas tristezas,
de meus ais.
Sabe que sou parte disso, mas nisso não quero pensar.
Sabe também que tenho no peito um músculo,
que bate involuntariamente e que é frágil e inconstante.
Não o fiz assim. Ele é assim.
Daria a vida para tê-lo mais forte, decidido.
E que não sentisse tanto. Impossível.
Quem sabe noutra existência?
Há tantas estrelas por aí, mas por ora tenho de ficar aqui.
Oh, Deus, por que pessoas pisam nos corações umas das outras?
Não pisam apenas. Sapateiam.
Dançam "CanCan" sobre eles
e, ao final, sorriem satisfeitas.
A roda gigante do mundo é incansável, eu sei.
E numa de suas voltas leva embora a dor.
Enxuga as lágrimas, traz novos horizontes,
Novas borboletas (no estômago), novos sentimentos.
De alguma forma, tudo chega ao fim,
de alguma forma, vem à luz o novo.
Até "o para sempre" dos apaixonados um dia acaba
para dar lugar a uma nova eternidade,
presente em outros olhos.
Já é hora de acordar.
Ouço batidas na porta.
É a realidade - os sonhos se foram.
Também cortaram minhas asas, já não posso voar.
Como vou existir sem sonhos e sem asas?
Por mais que eu seja outro a cada nova aurora,
em essência, não serei nada além do que sou hoje:
uma melodia em tom menor - melancólica, triste.
Por isso, nunca me deixe só.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Maria e José

É preciso insistir - sempre

Adeus, João de Deus