Visões (Carlos Drummond de Andrade)

O Apóstolo São João foi realmente
um poeta extraordinário como igual
não houve depois ----
                                 nem Dante
                                 nem Blake
                                 nem Lautréamont


Teve tôdas as visões antes da gente.

Viu as coisas que são e as que serão
no mais futuro dos tempos, e que resta 
a prever, a como-ver, aos repetentes míopes
que somos e não vemos o Dragão
e nem mesmo o besouro?


Viu animais cheios de olhos em volta e por dentro, 
glorificando Alguém no trono, semelhante ao jaspe e à sardônica.
Viu a mulher, sentada na bêsta escarlate 
de sete cabeças e dez chifres
e na fronte da mulher leu a inscrição: Mistério.
Viu o Nome que ninguém conhece 
nem saberia inventar, pois se inventou a si mesmo.
Os surrealistas não puderam como êle.
Viu a chave do abismo
que Mallarmé não logrou levar no bôlso.
Viu tudo.
Viu principalmente o supertrágico, a explosão nu-
                                clear, e nisto me afasto dêle.

Não, não gostaria de predizer o fim do mundo,
como sete taças de ouro repletas da ira de Deus
despejando-se sôbre a Terra.
Quero ver o mundo começar
a cada 1º de janeiro
como o jardim começa no areal
pela imaginação do jardineiro.


desculpe, São João, se meu apocalipse 
é revelação de coisas simples
na linha do possível.
Anuncio uma lâmpada, não sete
 (e nenhuma trombeta)
a clarear o rosto amante:
são dois rostos que, se contemplando,
um no outro se vêem transmutados.
Pressinto uma alegria
miudinha, trivial, embelezando
em plena via pública o passante
mais feio, mais deserto
de bens interiores


Profetizo manhãs para os que saibam
haurir o mel, a flor, a côr do céu.
O mar darei a todos, de presente,
junto à praia, e o crepúsculo sinfônico
pulsando sôbre os montes. Um vestido
estival, clarocarne, passará,
passarino, aqui, ali, e quantos ritmos
um pisar de mulher irá criando
na pauta de teu dia, meu irmão.
Oráculo paroquial, a meus amigos
e aos amigos de outros ofereço
o doce instante, a trégua entre cuidados,
um brincar de meninos na varanda
que abre para alvíssimos lugares
onde tudo que existe, existe em paz

E mais não vejo, e calo, que as pequenas
coisas são indizíveis se fruídas
no intenso sentimento de uma vida
 (são 20 ou 70 anos?)
limitada e perene em seu minuto 
de raiz, de fôlha dançarina e fruto.




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