A bailarina apaixonada

Por Sueli Melo

Conheceram-se. Ele, bonito, inteligente, educado. Ela, amável, intensa, misteriosa. No início havia sentimento, paixão. Mais forte de um lado, o dele. Ele cantava seu amor aos quatro cantos do mundo. Ela mantinha-se quieta, não tinha certeza de nada. Aos ouvidos dela, ele falava de amor. Falava-lhe de eternidade. Ela seguia confusa, dizia o que ele queria ouvir. Chorava, porque não sabia dizer não.

Com o tempo que a tudo devora, ela percebeu que talvez aquele amor, já não fosse real. Ele a protegia demais. Dava-lhe tudo o que ela queria. Cobria-lhe de luxo, de presentes. Mas ela sentia que aquilo não lhe preenchia a alma como sonhara, embora, a seu modo, o tenha amado um dia. Tinha-lhe respeito, admiração, carinho e gratidão. Ela sabia também que isso não era o bastante para ser feliz. A vida devia ter muito mais a lhe oferecer. Ela sonhava. Além disso, não era o que ele queria. Ele a desejava só para si. O sentimento de posse e o ciúme o consumiam.


Ela se sentia uma bailarina na caixinha de música, condenada a viver ali, girando, girando até a melodia acabar, e ele dar-lhe corda novamente. Ela não queria mais aquela situação, mas não conseguia sair. Parecia presa a correntes invisíveis. Ela sofria. Não queria um amor assim. A chama que lhe queimara o peito outrora, transformara-se em cinza. Não queria magoá-lo. Afinal, ele era parte de sua vida, de sua história. Ela só queria sentir no coração, uma nova chama ardente. Queria voar.


Um dia aconteceu. Seus olhos se acenderam. Encontrou o que procurava. E ela não pensou duas vezes. Saltou do precipício de olhos fechados. Uma queda em câmera lenta. O coração, coitado, em descompasso, batia como um louco desvairado. E ela caindo, caindo, caindo... Já não interessava se morreria, se seria salva por um anjo ou se ganharia asas para voar de volta. O que interessava era que aquele havia sido o salto mais lindo que dera em toda a existência.


Ela não teve medo nem arrependimentos. Não olhou para trás. O inevitável fim era o que menos importava. E ela morreu. Morreu de paixão. Não foi salva na última hora. Não ganhou asas. Morreu. Mas morreu feliz. Porque para ela, era mais válido viver um amor em chamas, que durasse pouco, mas que fosse eterno em intensidade, do que uma existência longa e morna.

No último sopro de vida, lançou um sorriso que brilhou mais que o sol. Estava plena. Livre, renasceria outra vez. E não seria a bailarina presa à caixinha de música. Nunca mais na vida.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Maria e José

É preciso insistir - sempre

Adeus, João de Deus