Foi assim que tudo começou

Quando eu era criança, adorava ler. O porquê eu não sabia, mas adorava. O problema é que onde eu nasci tudo era muito precário. E eu só pude ler três livrinhos da escola. E eu me lembro de cada um deles. Das cores, dos desenhos, até do cheiro que eles tinham. Mas o que me encantava mesmo eram as palavras. Ah, aquelas palavras eram apaixonantes, preenchiam-me de uma forma que até hoje, não consigo explicar. Sinto, simplesmente.

Meus irmãos dizem que eu quase não falava. Minha mãe achava que eu era surdinha (rs), porque às vezes ela me chamava e eu não a ouvia. Descobri muito tempo depois que, na verdade, eu vivia em um mundo à parte. Um mundinho só meu. Cheio de letrinhas que formavam palavras que eu queria entender.

Muito antes dos oito anos de idade, eu já admirava as estrelas. Deixava-me entorpecer pelo laranja que coloria o horizonte, quando a tarde caía. Passava horas no jardim que minha mãe cultivava do lado direito da nossa casa. Ficava ali com meus pensamentos infantis.

Eu tentava achar palavras para expressar tudo aquilo que acontecia dentro de mim. Não encontrava. Mas meu peito explodia numa emoção que eu não entendia, só sentia. Como não tinha mais livros, pedia a meu pai para escrever as letras das músicas que ele ouvia. Só para ter as palavras por perto. Tinha fome de palavras. Fome de versos, já os conhecia. Fazia sentido para mim, embora eu não soubesse o significado disso. Era muito bom sentir o que eu sentia.

A vida, no entanto, tem planos nem sempre tão poéticos. E minha leitura, todo aquele sentir, meus livros de infância se resumiram àqueles três. Durante um bom tempo, o meu universo cheio de palavrinhas ficou para trás. Foram tantos os motivos. Falta de recursos, trabalho - comecei com apenas 12 anos de idade. Enfim, sob estas condições, abriu-se um abismo entre nós – entre mim e as palavras.

Queria falar, escrever, cantar sobre as coisas que vivia. Mas as palavras não me vinham como gostaria. Isso me entristecia. Mas no fundo sentia que algum dia iríamos estar juntas outra vez. Demorou. Mas aconteceu. Reconciliamo-nos. Vou me agarrar nas asas delas e nunca mais deixá-las escapar de mim.

Tudo isso só para dizer que meu universo se traduz em verso, em prosa, em amor às palavras.

s.melo

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Maria e José

É preciso insistir - sempre

Adeus, João de Deus