segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Paralisia - O despertar além das telas

Imagem gerada por IA
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Capítulo 1 - O brilho que cega


A luz azulada era a única coisa viva naquele oceano de escuridão. Refletia-se nas pupilas dilatadas de Pâmela, duas esferas vidradas que, há horas, haviam esquecido a necessidade biológica de piscar.

O contraste entre o brilho artificial da tela e as sombras espessas do quarto criava uma atmosfera quase irreal, como se a garota estivesse flutuando no espaço sideral, tetherada à sua nave apenas por aquele retângulo luminoso entre os dedos. A madrugada já havia engolido a casa inteira, mas para ela, o tempo havia deixado de ser medido pelo movimento do sol ou pelos ponteiros de um relógio. O tempo era medido em porcentagem de bateria.

Dezessete anos. Uma idade que, segundo os romances de formação e os filmes adolescentes, deveria ser marcada por descobertas, por corridas ofegantes sob a chuva, por corações partidos em festas barulhentas e por um apetite voraz pelo mundo. Pâmela, no entanto, havia reduzido seu mundo a seis polegadas de vidro temperado. Deitada de lado, com os joelhos encolhidos em uma posição fetal que já lhe causava uma dor surda na lombar, ela deslizava o polegar direito para cima. Um movimento mecânico, repetitivo, quase hipnótico. Para cima. Para cima. Um vídeo de trinta segundos sobre uma rotina de pele perfeita. Para cima. Uma garota dançando em um quarto impecavelmente iluminado. Para cima. Um meme sobre exaustão mental. Curtir. Para cima.

O quarto ao seu redor era o retrato fiel do abandono, um ecossistema próprio que prosperava na ausência de luz natural e de ventilação. O ar era denso, pesado, carregado com o cheiro adocicado e rançoso de pacotes de biscoitos abertos e roupas que jaziam amontoadas em cantos indefinidos há semanas. Se a luz do teto fosse acesa repentinamente — um evento que Pâmela evitava com o fervor de quem foge de uma ameaça letal —, revelaria uma geografia de negligência absoluta.

Próximo aos pés da cama, uma pequena montanha de peças de vestuário se misturava a toalhas úmidas que nunca retornaram ao banheiro. Na escrivaninha, outrora um local de estudos, repousava um prato com restos endurecidos de macarrão instantâneo, ladeado por três copos manchados com anéis de leite seco no fundo. A poeira dançava preguiçosamente sempre que ela mudava de posição sob o cobertor pesado, assentando-se sobre a superfície da velha estante de madeira encostada na parede oposta. Ali, dezenas de livros juvenis que ela devorava com paixão aos treze e quatorze anos agora serviam apenas como blocos silenciosos, com suas lombadas desbotadas perdendo-se na penumbra. Eram relíquias de uma garota que conseguia imaginar universos inteiros sem precisar que uma tela os mastigasse e cuspisse em alta definição.

Pâmela coçou o canto do olho com as costas da mão livre, sentindo a aspereza da própria pele. Fazia dois, talvez três dias que não lavava o rosto direito. O cabelo castanho estava preso em um coque frouxo no alto da cabeça, os fios embaraçados e pesados pela oleosidade acumulada. Ela sabia, em algum lugar remoto de sua consciência, que precisava de um banho. Sentia o próprio cheiro misturado ao do tecido sintético do lençol, sentia a boca amarga e o estômago contraindo-se em um protesto oco por comida de verdade. Mas a inércia era uma força gravitacional muito mais poderosa que a higiene ou a fome.

Levantar significava acender a luz. Acender a luz significava olhar para o espelho do guarda-roupa desajustado, aquele mesmo cujas portas nunca fechavam direito. E olhar para o espelho significaria encarar a si mesma: as olheiras profundas e arroxeadas manchando o rosto pálido, a postura curvada de quem carrega o peso de mil vidas alheias nos ombros, a expressão vazia. Pâmela preferia o abismo iluminado das redes sociais. Lá, ela não precisava ter um rosto, não precisava ter um corpo físico que demandava manutenção constante. Ela era apenas um espectador invisível e onipotente, julgando, rindo e existindo através da existência dos outros.

O polegar continuou sua marcha. Desliza. O brilho excessivo queimava suas retinas, provocando um leve latejar nas têmporas, mas a dor física era um preço minúsculo a se pagar pela anestesia mental. A cada novo vídeo, a cada nova imagem perfeitamente filtrada, o algoritmo lhe entregava uma microdose de dopamina, o suficiente para mantê-la sedada, o suficiente para abafar o eco ensurdecedor da solidão que infestava aquele quarto.

A dependência havia se instalado de forma insidiosa. Não começou como um vício descontrolado, mas como um refúgio. O mundo lá fora, além da porta de madeira pintada de branco, era exigente demais, barulhento demais e, acima de tudo, decepcionante demais. Lá fora, existiam as expectativas. Existia a escola, com suas hierarquias cruéis e professores que falavam sobre um futuro que a ela parecia uma pintura abstrata e sem sentido. E existiam seus pais e seus irmãos.

A família havia se tornado um conceito distante, quase alienígena. Pâmela morava sob o mesmo teto que eles, mas habitava uma galáxia completamente diferente. As interações diárias haviam minguado até se transformarem em um roteiro previsível e monossilábico.

Você não vai jantar conosco? Não, tô sem fome. Pâmela, você passou o domingo inteiro trancada aí. Tô estudando. Deixa a porta fechada.

Era sempre assim. As palavras proferidas pelos pais chegavam abafadas, destituídas de impacto real. O pai, com seu olhar de cansaço crônico após horas no escritório, e a mãe, dividida entre a exasperação e a tentativa falha de compreender o que havia acontecido com a filha comunicativa e sorridente de anos atrás. Para Pâmela, as preocupações deles soavam como interferências de rádio, estáticas chatas que interrompiam a sintonia perfeita de sua vida digital. Eles não entendiam.

Como poderiam entender? Eles pertenciam a uma geração que acreditava que a vida acontecia na mesa de jantar ou na calçada em frente de casa. Não compreendiam que a verdadeira vida de Pâmela latejava na palma de sua mão, nas comunidades virtuais onde milhares de pessoas compartilhavam das mesmas dores silenciosas que ela.

Um aviso de bateria fraca piscou no centro da tela. Vinte por cento. O aviso foi acompanhado por uma diminuição automática do brilho, fazendo com que a escuridão do quarto avançasse um passo em direção à cama. Pâmela sentiu um sobressalto imediato, uma micro-onda de pânico percorrendo seu peito. Seu corpo, adormecido pela mesma posição por horas, protestou quando ela se esticou desajeitadamente até a beirada do colchão, tateando o chão às cegas em busca do cabo do carregador. Seus dedos roçaram em uma meia endurecida, em uma tampa de caneta, até finalmente encontrarem a ponta metálica do cabo conectado à tomada.

Ela platinou o celular na energia com um suspiro de alívio. A conexão foi feita, e a corrente elétrica garantiu que seu cordão umbilical com a rede não seria cortado. O coração, que havia acelerado brevemente, voltou a um ritmo arrastado.

Enquanto a tela voltava à sua luminosidade máxima, iluminando novamente o rosto suado e exausto, Pâmela percebeu um som sutil. Diferente do áudio compactado e acelerado do feed de vídeos curtos. Era um som físico, analógico, rastejando pelo corredor lá fora. Passos abafados sobre o piso de madeira da casa, seguidos pelo rangido familiar de uma tábua solta próxima à escada.

A madrugada já devia estar cedendo espaço ao amanhecer, um fato que lhe causou uma repulsa imediata. O amanhecer trazia a luz do sol lutando contra as frestas de sua cortina blackout, revelando sem piedade o quão deplorável estava o chão do quarto. O amanhecer trazia o som dos carros na rua, a movimentação da rotina que ela ativamente rejeitava. Mas, pior que tudo, o amanhecer trazia a movimentação na casa.

Os passos pararam exatamente do lado de fora de sua porta. Pâmela prendeu a respiração por reflexo, seu polegar congelando a meio milímetro da tela. Ela conseguia visualizar, através da fina fresta inferior que deixava vazar a luz amarelada do corredor, duas sombras que quebravam a linearidade do feixe de luz. Alguém estava parado ali.

O silêncio do lado de fora parecia carregado de palavras não ditas, de uma frustração espessa que tentava penetrar pela fechadura. A jovem estreitou os olhos irritados, a secura ocular ardendo com a mudança de foco. O mundo real insistia em assombrar as fronteiras do seu refúgio, ameaçando a redoma de poeira, silêncio e luz artificial que ela havia construído com tanto esforço. Ela não queria a realidade. A realidade era um espelho desajustado mostrando olhos vermelhos e um rosto que ela mal reconhecia. A realidade era um prato sujo e o peso esmagador de existir fora das telas.

Com um movimento rápido e defensivo, Pâmela puxou o cobertor até a altura das orelhas e abaixou o celular até que a luz azul iluminasse apenas a pequena caverna de tecido ao seu redor. Levou o dedo até o botão lateral do aparelho, clicando três vezes até que o volume do vídeo no feed se sobrepusesse a qualquer som que pudesse tentar atravessar a madeira da porta, afundando-se de vez no brilho seguro e constante que a mantinha paralisada.


terça-feira, 21 de janeiro de 2025

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Basta saber olhar

 A vida é cheia de belezas,

coias simples, que muitas vezes

não vemos com clareza... 

Apesar de estar tão claro 

diante dos nossos olhos,

acima de nossas cabeças.

Está tudo aqui, basta olhar

com profundidade e se

deixar sentir...


@liemversos 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Anseios

Coisas da vida, 

coisas do coração...

Pior ainda

se for sobre paixão:

onde houver

expectativa,

haverá decepção.

@liemversos



sexta-feira, 7 de julho de 2023

Para ser feliz

Por Suely Melo (@liemversos)

▫️ Faça do seu jeito (o melhor possível) o que tiver que ser feito.
▫️ Encante-se! Tem coisa boa acontecendo o tempo todo, é só olhar direito...

▫️ Leve na bagagem somente o que for leve. 
De peso, basta o da gravidade que nos prende ao chão.

▫️ Invista em você! Cuide da beleza exterior, 
mas não esqueça de seu coração.

▫️ Caminhe olhando sempre pra frente, 
confiante, cabeça erguida e peito aberto.

▫️ Idealize, crie pra você o melhor 
dos mundos, voe nas asas de sua imaginação.

▫️ Doe - seja o que for - coisas, 
atenção, tempo, afeto...

▫️ Aceite-se, agradeça... 
Ative o que há de mais bonito dentro de si... 
Viva sua imensidão...

▫️ Durma bem, com a consciência tranquila. 
Isto não tem preço.

▫️ Entregue-se, viva, reflita, reaja, acredite, 
tenha empatia, compaixão, divirta-se... 
Seja protagonista de sua história. 
Esta é sua vida. Sua estação."

Sempre só você...

No fundo, bem lá no fundo, do começo ao fim de tudo, é e sempre será só você... Submergindo ou flutuando neste imenso oceano que é a complexidade do seu ser

quinta-feira, 6 de julho de 2023

Cada dia é mais que mais um dia

Jamais se esqueça: 

cada dia que amanhece

no seu horizonte, 

não é só mais um dia... 

É uma oportunidade única

de ser feliz, de recomeçar,

de fazer diferente, de sorrir,

chorar - porque é preciso, 

de ir além, de reconstruir, 

de seguir em frente...

@liemversos 

Paralisia - O despertar além das telas

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