Maria e José

Por Sueli Melo

Ele nasceu primeiro. Maria, dois anos depois. Os pais de José não o quiseram, deram-no aos tios. Maria era a antepenúltima dentre mais de dez irmãos. Pois é, o tempo passou e um dia, os destinos de Maria e José se cruzaram. José tinha olhos verdes e acesos. Os de Maria eram castanhos e meigos. Ambos repletos de sonhos. Os sonhos ingênuos refletidos nos olhos de qualquer adolescente de qualquer tempo. Casaram. Ela contava então com dezesseis anos e ele com dezoito. Ele queria ser cantor. O violão sempre fora seu amigo mais leal. Nas noites enluaradas entoava as modas que lhe alegravam o espírito. Maria queria conhecer o mundo. Gostava de ler, dançar, viver. Eles tiveram sete filhos, mas eles são outra história. Esta é a de Maria e José.

  Maria criou os filhos praticamente sozinha. Trabalhava dia após dia para que não faltasse nada em casa. Empreendedora nata, fazia render, de forma criativa, qualquer quantia de dinheiro que lhe caísse nas mãos. Durante um tempo chegou a ter um pequeno comércio, que o jovem e imaturo marido pôs a perder. Vendia fiado, bebia com os amigos. Ele, definitivamente, não tinha o menor talento para os negócios. Maria possuía a sabedoria de poucos. Os sonhos, ela cultivava na alma. Não tirava os pés do chão. Ela queria aprender. Queria ver o que o mundo tinha a lhe oferecer. Mas pelas circunstâncias do destino, no seu universo repleto de realidade teve de permanecer. Um defeito de Maria: se importar demais com o que os outros pensavam sobre ela. Isso a fazia sofrer.

Maria chorou muito na vida. Suportou as angústias mais intensas. Nasceu e renasceu muitas e muitas vezes ao longo de sua jornada. Com a dor aprendeu a ser forte, mas não perdeu a sensibilidade. Com a solidão aprendeu a refletir. Nos momentos de sofrimento lia a Bíblia. Esta se tornou sua companheira fiel. Leu-a do começo ao fim. Cada trecho era um alento para a alma cansada de Maria. Ela tinha o dom de ensinar, de cativar as pessoas a sua volta. Maria era uma mulher como poucas no mundo. Era também acolhedora e sensível, mas ao mesmo tempo forte e decidida.

Ao contrário de Maria, o pobre José era só sonhos. E em busca destes partia de tempos em tempos para a cidade grande. Na verdade, constantemente. José foi um marido e um pai ausente. Tinha um bom coração. Uma humildade sem igual. Mas pautou sua existência sobre estruturas de areia. Porque os sonhos de José eram maiores do que qualquer coisa no mundo. Acreditava que um dia poderia ficar rico. Por isso jogava. Jamais foi contemplado a ponto de mudar a vida. Incansável, ele insistia. Loterias, jogos do Bicho, Telesenas. Acordava, em datas de sorteio final, animado, sorridente, cheio de esperanças de que aquele finalmente seria o grande dia. E nada. Entristecia-se. Em meio àquela busca, José se esquecia de equilibrar as aspirações com a realidade. Pagou caro por isso. Pois elas se transformaram em ilusão e, preso ali, José ficou. Isolou-se em um mundo que girava e girava e sempre voltava para o mesmo lugar.

Com o tempo, José pouco a pouco se afastava daqueles que o queriam bem. Certo dia, José se viu só.  Resignado, mas ainda aprisionado ao mundo de utopias que criou para si, voltou para casa. Ele sempre voltava. No fundo José ainda era aquele menino de olhinhos verdes e aflitos, que um dia fora rejeitado pelos pais. Ele não sabia refletir sobre isso, não sabia que há coisas na vida que o tempo não apaga.

Há pessoas que nascem para cuidar, outras para serem cuidadas. Maria sabia que seu destino, sua missão nesta vida era cuidar de José. ­­­ Apesar da falta, apesar do abandono, apesar de tudo. José não tinha consciência dos erros que cometia. Não conseguia enxergar as coisas mais óbvias. Faltaram oportunidades de desenvolver aquilo que a natureza dá de graça para alguns - como deu para Maria: a sagacidade. Por isso, não compreendia que até nos sonhos deve haver coerência. Aliás, ele nem conhecia essa palavra - coerência. Pobre José. Ele não entendia que sonhos são aqueles que carregam em si a possibilidade de realização. Foi engolido pelo mar das ilusões. E foi assim que Maria percebeu que a cruz que José carregava pesava tanto quanto à sua. Pois perder-se em devaneios pode ser tão desolador quanto encontrar-se na mais crua das realidades.

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