Adeus, João de Deus

A vida é uma obra bela e trágica

Por Sueli Melo

João de Deus acordou angustiado naquela manhã. Levantou-se da cama, onde a esposa ainda dormia, certo de que teria um dia difícil. Vestiu-se com uma calça jeans surrada, uma camiseta amarela e  seu velho tênis. Antes de sair do quarto, olhou por alguns instantes a mulher de cabelos longos e maltratados e rosto sereno que há dez anos fazia parte de sua história. Com 39 anos, João de Deus tinha conseguido pouco na vida. Ora resignado, ora revoltado aceitava as migalhas que ela lhe oferecia. João era franzino, moreno, cabelos crespos, olhos pequenos verdes e tristes, e dentes amarelos com falhas entre eles. João de Deus era um homem de poucos sorrisos.

Quando criança, João sonhava em ser piloto de avião - conheceu um quando o pai dele trabalhou para este. Imaginava-se voando por cima das nuvens sob o céu. O tempo passou e os sonhos de João não deixaram de ser apenas sonhos. O mais próximo que já chegou deles foi quando prestou algum serviço nas proximidades de algum aeroporto. Adorava ver os aviões decolar. Na realidade dura que sua condição permitia era apenas um trabalhador da construção civil, perdido no meio da barulhenta metrópole. Ao longo dos anos vividos, construiu muitas casas e ajudou a levantar muitos prédios e outros tantos arranha-céus, mas nunca pôde morar num deles. “Afinal, que oportunidades tive para tentar mudar minha situação?", indagava-se entre um gole e outro de cachaça – uma das raras alegrias que tinha na vida. Era a bebida que o fazia, por algumas horas, esquecer as amarguras. 

João de Deus saiu do quarto, atravessou a minúscula sala, onde os quatro filhos pequenos dormiam profundamente amontoados sobre colchões finos e encardidos. A pequena casa de João, que ficava na periferia de São Paulo, era alugada e tinha apenas um quarto, a sala e a cozinha - que eram o mesmo cômodo e uma pequena área de serviço. A esposa era faxineira. O dinheiro que ganhavam mal dava para arcar com as despesas da casa e materiais escolares para os filhos. Quando o dinheiro acabava antes do fim do mês, o que acontecia com frequência, João recorria à vendinha de seu Sinval, que ficava na esquina da sua rua. Comprava fiado, inclusive a cachacinha do final de tarde.

João abriu a porta devagar, que gemeu mesmo assim fazendo com que um dos pequenos se remexesse de um lado para o outro. Mas não acordou. Do lado de fora, uma brisa suave acariciou-o. O sol começava a despontar. Algumas lembranças infantis vieram iluminar o espirito de João de Deus. Nada demais. Apenas recordações, cada vez mais distantes, de um menino sonhador. O tempo tem lá a sua crueldade, mas não anda sozinho. Traz nas asas a gravidade. Diante destes dois não há ser humano que não se curve. Não por vontade. Nunca por vontade. João de Deus pegou-se naquela manhã divagando sobre tempo e gravidade. Uma estranha sensação o invadia por inteiro. 

Embora o céu parecesse mais azul e belo do que nunca naquele dia, o vazio e a tristeza que sentia eram maior que qualquer beleza do universo. João de Deus só queria não existir. 

João caminhou devagar até a cozinha. Não fez café, como de costume, não estava com fome e por isso nada comeu. Pegou um copo, encheu de água e tomou em um só gole na tentativa de se livrar do amargo que lhe vinha à boca. Não conseguiu. O sabor amargo não estava na boca, estava na alma, na vida medíocre que levava. Antes de sair para o trabalho, João de Deus olhou novamente os filhos, que não imaginavam o padecimento do pai. Uma lágrima escorreu lentamente sobre aquele rosto endurecido, marcado pelo tempo, castigado pelo cimento, pelo cal e pelo sol.

Quando a porta se fechou atrás dele, sentiu que aquela seria a última vez que veria a família. Olhou para o céu mais uma vez – esta era a primeira coisa que fazia todas as manhãs -, respirou fundo e seguiu, esprimido no ônibus lotato (como todos os dias) para o trabalho.   

O relógio marcava meio-dia e João de Deus estava no terraço do prédio que construia. Ali, repensou a vida e chegou a uma conclusão definitiva sobre ela. Tirou o capacete de proteção e o colocou cuidadosamente ao lado das botas e das luvas amarelas. Olhou pela terceira vez o céu daquele dia e viu um avião. Cerrou os olhos, chorou um pouco mais, abriu os braços e saltou. Nos últimos instantes, sentiu-se livre. Leve. Era o fim. Nada mais tinha qualquer importância. O mundo nunca mais lhe faria mal. 


Comentários

  1. Expressiva sua crônica. Ganhou o efeito que tecia desde o início: tocante!

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    1. Que honra ler isto, Vilma! Obrigada!

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