O triste destino de Maximiano



Chamava-se Maximiano, o sobrenome, Santana, era o mesmo do lugar onde nascera e para o qual, ao fugir, com apenas dezesseis anos de idade, nunca mais retornou: Feira de Santana, Bahia. Tinha um corpo franzino, a pele queimada pelo sol e os olhos pequenos e ansiosos. Lá na terrinha, ele vivia com o pai e um irmão mais velho. A mãe morrera cinco anos antes. Desde então, a vida tornara-se menos alegre.

      - Os motivos que me fizeram fugir de casa – dizia ele aos amigos e às pessoas que ia conhecendo ao longo do caminho - queria conhecer o mundo, ganhar dinheiro, construir uma família, ter uma casa grande, bonita.

Eram muitos os sonhos que pulsavam no peito de Maximiano. Acreditava que Feira de Santana era pequena demais para ele. Nada o prendia ali. Um dia pegou suas quatro ou cinco peças de roupa e partiu com uma empreiteira da construção civil que conheceu na cidade vizinha, quando um tio o levou para arrumar trabalho. Não disse adeus. Não olhou para trás. Depois de uma longa e cansativa viagem, chegou à grande cidade com emprego garantido e lugar para morar. “Serei feliz aqui em São Paulo”, pensava ele.

Trabalhou até os vinte anos de idade sob aquela condição. Era servente de pedreiro. Não gostava da profissão, mas não havia estudado além da segunda série do primário. Mal sabia escrever o próprio nome. Não tinha, portanto, condições de arrumar algo melhor. Demorou a entender que para ser alguém na vida era preciso ter estudo ou esperteza. Ele não possuía nenhum dos dois pré-requisitos.

Aos trinta, por ser honesto e trabalhador, arranjou emprego de "segurança" oferecido pelo patrão de tantos anos. Passava oito horas por dia, ora sentado, ora circulando de um quarteirão a outro e ao redor de uma guarita, vigiando mansões de bairros nobres da cidade.

Certo dia, conheceu Adelaide. Moça bonita e ambiciosa. Apaixonou-se por ela. O problema é que somente ele nutria o tal bichinho que queima e corrói a alma dos pobres iludidos. A bela Adelaide já tinha namorado. Um auxiliar administrativo alto e magricela com futuro promissor. Sofreu. Não acreditou que teria chances com Adelaide. "Ela é bonita demais pra mim" - lamentava-se sob noites estreladas regadas a álcool e cigarros.

Tinha razão. Adelaide sequer notava sua presença. Desiludido, quis abandonar o emprego, mas em consideração ao bom patrão achou por bem não deixar que as mazelas de seu coração o fizessem ingrato. Desistiu da ideia. Alguns meses depois, conheceu outra pessoa que lhe fez esquecer a bela Adelaide, pelo menos por um tempo.

Madalena era babá. Moça simples, de cabelos longos e cacheados que trazia no olhar uma serenidade fraternal, mas de personalidade forte. Viera muito cedo também da Bahia para São Paulo. Madalena o amava com toda a sua alma e queria se casar com ele. Maximiano não conseguiu corresponder ao sentimento. Era dono de um coração decidido. Mesmo assim, tentou. Pediu-a em casamento. Não tinha muito a oferecer. Não tinha casa própria, não tinha carro e o pouco dinheiro que havia poupado não dava para muita coisa. Aliás, não saber lidar com dinheiro era um dos problemas de Maximiano. Madalena não se importava com isso.

- Alugaremos uma casinha e seremos felizes lá – dizia ela. - Podemos trabalhar juntos e comprar um lugarzinho só para nós e nossos filhos.

Maximiano sabia que isso não seria possível. Não conseguia entregar seu coração para a doce Madalena. Ela percebia, mas tinha esperança de que algum dia o amor nascesse dentro dele, ou que fosse capaz de amar pelos dois. Iludiu-se. E quando caiu em si, abandonou-o numa tarde de chuva, trovoadas e muitas lágrimas. Ele não chorou, mas não conseguia entender porque não se apaixonara de verdade por uma moça tão meiga, bonita e que o amava.

Tempos mais tarde soube, por uma amiga em comum, que Madalena viajara para os Estados Unidos com os patrões, cujo filho ela cuidava. Soubera também que Madalena nunca estivera tão bem, tão feliz e tão cheia de vida. Segundo a amiga, Madalena havia enviado uma carta para contar as boas novas. Com a notícia, Maximiano perdeu-se no horizonte por alguns minutos, como que congelado no tempo. E um pensamento fez seu coração estremecer: talvez aquela tivesse sido a única chance que a vida lhe tinha dado de ser plena e verdadeiramente feliz, e talvez ele tivesse atropelado o destino. E ele havia desperdiçado aquela oportunidade para sempre. Entristeceu.

Em outra ocasião encontrou Adelaide e sentiu algo por dentro. Ela não o viu. Maximiano não teve coragem suficiente para abordá-la. Ela se foi e ele sentiu as pernas tremerem, quando viu que pouco mais adiante ela encontrou o namorado, que a recebeu com um beijo apaixonado. Morrer era só o que ele queria.

A ideia da morte propriamente dita muitas vezes passava pela cabeça de Maximiano. "Acho que essa é a solução", pensava nos momentos de solidão e angústia. Também neste caso, a tal coragem não se apresentou.

Maximiano tinha um ou dois amigos sinceros para quem contava seus dissabores amorosos. O Nequinho era um deles. Os outros “amigos” descobriram que ele mantinha as mãos e a carteira sempre abertas. Todo salário que receba era dividido entre homens e mulheres que conhecia. Não que ele quisesse fazer isso. Apenas não sabia dizer não quando alguém lhe pedia algum trocado. Ele emprestava para um e para outro sem qualquer restrição e ninguém lembrava que deveria pagar os empréstimos. Ele, por outro lado, não cobrava. O resultado é que sempre estava sem dinheiro.

Maximiano contava com pouco mais de quarenta anos, quando conheceu Amélia. A moça alta de cabelos ondulados e olhos castanhos, grandes e expressivos estava entre os que se aproveitavam da fragilidade dele em relação à vida financeira. Ele estava encantado por ela e não via problema e dividir o que ganhava. A bela morena usou o homem até encontrar outro que podia lhe dar mais do que ele para suas futilidades. Maximiano, quando soube da traição, quis matá-la. Mais uma vez foi só uma ideia que passeou rapidamente pela cabeça atordoada dele. Não tinha coragem de matar uma formiga. Sofreu outra vez.

     - Maldita seja! – esbravejou. - Por que isso acontece comigo? - questionou ao Nequinho, na hora da tormenta. O amigo ofereceu o ombro e algumas palavras de conforto. Maximiano chorou mais uma vez e jurou nunca mais amar ninguém enquanto a vida lhe fosse possível.

Aos cinquenta, nosso herói, pensou em voltar à Feira de Santana. Queria encontrar o pai, que nem sabia se ainda estava vivo, e o irmão. Desde que chegara, havia quase trinta anos, não dera notícias. Nem uma carta escreveu, ou um telegrama, nada. Conhecia pessoas que sabiam escrever e poderiam ter feito isso por ele.

     - O tempo foi passando, passando – revelou, certa vez, com tristeza nos olhos, ao mesmo amigo de sempre. - Quando vi já era tarde para correr atrás. Não pude. Não tive coragem.

À época, caiu doente e não conseguiu viajar. Quando ficou bom, a vontade já lhe tinha fugido outra vez. Nunca mais o desejo de reencontrar a família voltaria a visitar os pensamentos de Maximiano.

Os anos voavam. Triste e solitário pelos dias e noites de São Paulo, o homem que, aos dezesseis anos, tinha o coração carregado de sonhos deixava o pouco que ganhava nos bares de quinta no centro da cidade. Pagava bebidas a quem aparecesse na frente e lhe desse um olhar, um sorriso que fosse. Não tinha quase nada. Perdeu para os anos o único amigo verdadeiro de toda a existência - o Nequinho. Aposentou-se. Continuava só, rodeado apenas dos sanguessugas que lhe tiravam até seus últimos centavos.

Conforme corria o tempo e Maximiano experimentava a proximidade do fim, iam-se também as lembranças. Por muito tempo foram as recordações de Madalena que alimentaram o seu espírito. Não entendia o porquê. Afinal, ele não a amou como ela merecia e ainda assim era a imagem dela que vinha em seus pensamentos, quando menos esperava. Sem essas lembranças, o vazio e a tristeza aumentavam de forma assustadora.

Inevitavelmente, o peso dos anos o tornava menor a cada dia, como se encolhesse pouco a pouco. Àquela altura, já não sonhava, já não tinha pressa, não sentia falta, saudade... Nos olhos já não havia qualquer brilho. Cheiros, sabores de outros tempos já não aguçavam seus sentidos. O sorriso desdentado também lhe era raro.

A vida agora era uma toada lenta e ele apenas uma sombra vagando na escuridão de dias e noites que se arrastavam sem piedade.

Idoso, Maximiano morava numa casa velha e tão vazia quanto a vida dele, dessas que ficam anos e anos à venda, à espera de um comprador. Na pequena mesa de madeira gasta pelo tempo, com três cadeiras gradeadas e duras, posicionada no canto esquerdo da cozinha amarelada, coberta com azulejos esverdeados e antigos, ao lado da porta dos fundos, sempre havia um pacotinho com três ou quatro pães e uma garrafa de café. A casa cheirava a mofo e Maximiano dormia em um colchão estendido rente à parede do quarto. As solidão era sua única companheira.

Em junho de 2010, quando os diferentes povos celebravam a Copa do Mundo - não que isso fosse importante para ele -, Maximiano, então com oitenta anos, lançou seu último olhar sobre o que alguém ousou chamar de vida. Morreu vítima de uma pneumonia. Soube naqueles instantes finais de existência que o tempo não espera. Que ele é feroz, veloz e silenciosamente voraz, e que nada se repete. Lembrou vagamente dos amores e dos sonhos perdidos vida afora. A imagem de Madalena lhe sorriu pela última vez. Uma lágrima atrevida caiu de seus olhos já cerrados e sem vida. Não houve ninguém para velar ou chorar por ele. Ninguém sentiria a falta de um homem chamado Maximiano. Foi enterrado numa cova rasa na cidade que um dia acreditou que encontraria a felicidade.

O segredo

Eis que chega o momento de uma revelação. A prova mais contundente de que o destino é realmente sinuoso, cheio de surpresas e alguns desencontros. Maximiano jamais saberia que Madalena lhe havia dado um filho. Um filho bonito, inteligente e saudável. Ela, para não esquecer seu único e verdadeiro amor, deu ao menino o nome do pai. Após romper com Maximiano, Madalena, a convite dos patrões, decidiu ir embora, não para o exterior, mas para o Sul do Brasil. Ela era babá do único filho do casal, como já é sabido. Já que passava por uma situação difícil pensou que a melhor coisa a fazer era ir para bem longe de Maximiano (pediu para a amiga dizer que ela havia partido para fora do país). Quem sabe assim o esqueceria. Quando já estava instalada naquele novo ambiente descobriu a gravidez. Foi tomada no momento por um sentimento dual. Ao mesmo tempo em que estava feliz por estar gerando uma vida, fruto de seu amor, também lamentava o fato de que Maximiano não a amava e "certamente" - pensou - "não vai amar o nosso bebê". Aos prantos, decidiu que o garoto seria só seu e de mais ninguém. Diria a ele que o pai havia morrido e pronto. Assim evitaria maiores sofrimentos.

O tempo correu e, no mês em que o pequeno Maximiano completaria sete anos de vida, Madalena, ainda jovem e bonita, se despediu deste mundo, após um ataque do coração. Maximiano, que não tinha maturidade para entender o que aconteceu, chorou e pediu o colo da mãe até o dia em que se deu conta da realidade devastadora. Guardou nas lembranças os momentos felizes ao lado dela e seguiu seu caminho. Foi criado como filho e educado como tal pelos patrões de Madalena. Estudou nas melhores escolas e universidades, conquistou a profissão que desejou. Tornou-se um alto executivo do ramo imobiliário. Viajou pelo mundo. Apaixonou-se, amou, casou-se e teve três filhos. Foi feliz em muitos momentos, triste em outros tantos. Viveu. As circunstâncias do destino cuidaram para que pai e filho nunca se encontrassem. Maximiano, filho da pobreza e da solidão, morreu sem saber que um pedaço dele seguiria pela vida. 

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