Porcelana

Quando fiz 12 anos de idade, uma prima que acabara de se casar precisava de alguém para ajudar nas tarefas de casa. Minha mãe sempre quis que seus filhos não tivessem a vida que ela teve, ou seja, uma vida de pouco estudo. Por conta disso, ela achou que era uma ótima oportunidade de crescimento e autorizou que minha prima me levasse com ela para São Paulo. Naquela época, eu morava lá no norte de Minas Gerais, região de cerrado, às margens do Velho Chico.

Eu, quando criança até a adolescência com meus dentinhos abertos, era tímida, calada, submissa; tudo que me mandavam fazer eu fazia. Não havia em mim qualquer sintoma de rebeldia. Aceitava o que me ofereciam sem reclamar. Quando era algo bom, ficava feliz, quando era algo ruim, debulhava-me em lágrimas. E assim corriam meus dias. Enfim, embarquei com minha prima que amava minha mãe, mas - descobri logo depois da viagem - não ia muito com a minha cara.

A situação era a seguinte: ela e o marido viviam em um apartamento novinho, aconchegante, que ela ganhara de presente de uma senhora muito rica para quem trabalhou como babá de seus filhos. Minha prima tinha porcelanas lindas, de todos os tipos e de encher os olhos, claro, para quem gosta. Para mim não fazia diferença, eu tinha 12 anos. Desde o início, ficou estipulado que eu a ajudaria com os afazeres domésticos, depois da escola. Eu estudava no período da manhã.

Acontece, meu caro leitor, que como disse acima, e volto a enfatizar, eu tinha apenas 12 anos - com aparência e tamanho de 8 ou 9. E era um completo desastre em meus afazeres. Desastre mesmo. Isso significa que não havia um só dia em que uma jarra, um copo e outros objetos de vidro e porcelana, que a prima tanto prezava, não saltasse de minhas mãozinhas e se fizesse em vários pedaços. Todo dia era uma coisa. Não pense que a prima era compreensiva, que ela dizia “não se preocupe, eu entendo que você é só uma criança, que você só tem 12 anos”. Não, definitivamente não. Ela me castigava. Como? Uma das formas que ela utilizava para me punir era me proibir de ir a passeios, fosse com a escola ou com algum parente dela. Eu era querida e sempre havia convites.

Uma dessas proibições de minha “carrasca” doeu-me profundamente. Seu cunhado tinha combinado de levar eu e mais duas sobrinhas dele ao planetário. Eu nem sabia o que era planetário, mas fiquei encantada com a possibilidade e ansiosa para que chegasse logo o dia do passeio, quando ele descreveu como era lá e o que iríamos ver. Tudo bem que não há lugar melhor para ver as estrelas do que o lugar de onde venho. O céu de minha cidade é o mais lindo do mundo quando carregado de estrelas. São tantas que quase não há espaço para o azul. Parece uma tela pintada a mão com o maior capricho e destreza, um misto de azul e amarelo cintilante enchem os olhos de quem contempla.

Enfim, embora na minha terra fosse belo o teatro das estrelas, eu tinha vontade de ver como era isso no planetário. Porque lá, segundo o cunhado da prima, havia uma narrativa sobre o universo, a órbita da terra, os planetas. Claro que sabia algumas histórias sobre as constelações, as Três Marias, a Cruzeiro do Sul. Coisas que minha mãe contava sem nenhum embasamento científico, mas que era lindo de se ouvir. Pus-me então a imaginar como seria aquele passeio, contava as horas, os minutos, os segundos e, se duvidar, até os milésimos de segundos, tamanha era a ansiedade e a vontade que eu tinha de conhecer o tal planetário.

Na véspera do grande dia, um sábado, minhas pequenas mãos cometeram um deslize fatal. Havia um jantar para a família do marido da prima. Estavam todos lá. Sogros, irmãos, sobrinhos e eu e aquela linda louça de porcelana, reluzente, que deixava mais gostosa qualquer alimento que fosse colocado dentro dela. Sim, o pior aconteceu. Não preciso dizer que a pia era alta e que eu ficava na ponta dos pés para alcançar a torneira, certo? Pois bem, e aí ocorreu a fatalidade. Eu na ponta dos pés. O sabão. A torneira. As pequenas mãos. De repente, a bela porcelana em pedaços. Meu coração em pedaços Meu céu escureceu. Furiosa ao ver sua louça aos cacos, a prima me chamou na frente de todos e disse, sem a menor piedade: “Já para o seu quarto ou eu não me responsabilizo pelo que sou capaz de fazer!" (Ela sempre usava estas palavras, com olhar carregado de raiva. Havia algo em mim que a incomodava e nunca soube o que era). "Ah, e quer saber?", continuou "você não vai ao planetário amanhã”. Nunca esqueci suas palavras nem do quanto eu chorei. Adeus, planetário. Nunca mais se falou nesse assunto no apartamento.

Depois de alguns meses, voltei para casa, para junto de minha família, para o meu céu estrelado. No entanto, aqueles momentos jamais deixaram de ecoar em meus pensamentos. Minha aventura durou um ano, mas, em alguns momentos, parecia uma eternidade.

Anos mais tarde voltei para São Paulo sob outras condições, mais madura e independente. E só, muito tempo depois, fui ao planetário. Mas era outro tempo, outro olhar, outra forma de perceber a vida e seus mistérios. Mesmo assim, valeu a pena. Ainda havia poesia. Voltei aos meus 12 anos.

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